Eles me chamavam de musa. Olhavam para a purpurina na minha pele, para o corte dos figurinos que Manu e eu costurávamos com pressa antes de a noite cair, e viam ali um retrato estático. Uma moldura. Mas o que nós estávamos fazendo nos palcos do Granfinos, na umidade do Velvet ou sob o sol indômito das lajes do centrão de Belo Horizonte não era decoração. Era ancoragem. Nós éramos a cadência, o coro desobediente de uma pista que precisava de carne, suor, acordes e cor para não adoecer de assepsia.
Dez anos se passaram. Hoje, em 2026, o mundo parece ter sido traduzido em códigos, prompts e fluxos otimizados. A inteligência que antes buscávamos no transe coletivo da bateria do Alô Abacaxi agora é gerada por silício e redes neurais. O minimalismo que combatíamos em 2015 como uma postura estética higienizada europeia retornou refinado: hoje, ele se veste de telas cinzentas, interações sem toque e feeds organizados por padrões matemáticos que tentam prever até mesmo a nossa capacidade de sintonizar um ritmo.
Mas o algoritmo não tem ouvido absoluto. Ele não conhece a imperfeição calorosa de uma corda de violão de nylon levemente desafinada pelo sereno, nem a vertigem de uma transição de Thássio Baia que faz o coração errar a batida. Ele não entende que na música brasileira, o atraso da nota — o balanço que antecede o refrão — é justamente onde reside o sagrado.
Por isso, em 2026, a Tropicanália não é um exercício de nostalgia. Nós não voltamos para olhar para trás. Nós voltamos porque o futuro ficou sem balanço, e Belo Horizonte sempre soube que a nossa melhor versão é aquela que bate forte na marcação do surdo.
O "fetiche pós-brejeiro", que desenhamos no calor de meados da década passada, amadureceu. Se antes ele era a celebração da malícia rústica e melódica do interior sob o asfalto da capital, hoje ele é a nossa resposta de frequência definitiva. Ser brejeira em 2026 é um ato de soberania sonora. É a recusa sistemática em ser simplificada, equalizada ou sintetizada em um padrão de streaming. É saber usar a tecnologia para propagar o som, sim, mas exigir que a batucada aconteça na matéria, no toque, na acústica crua do corpo.
A nossa aliança histórica com a Transvest e com as dissidências que sempre protegeram o nosso coro continua de pé, agora com a força de quem compreende que a nossa polifonia não é uma métrica de inclusão para feeds corporativos. É a nossa própria harmonia de sobrevivência.
Em 2016, escrevemos que "minimalistas não passarão".
Em 2026, nós atualizamos o nosso compasso para o tempo presente:
Quais são os 4 mandamentos do ritmo no Manifesto Tropica 2026?
O maximalismo rítmico é a nossa ecologia
Cubram-se de flores, estampas, metais e percussão. Em um mundo de frequências lineares e design silencioso, o nosso excesso de acordes e barulho colorido é a nossa assinatura de vida.
Nossos corpos são dados acústicos incalculáveis
A pista de dança é o único espaço imune à compressão digital. Cada improviso no tamborim, cada coro espontâneo na saída do bloco é um ruído feliz que desafia o algoritmo.
A tecnologia serve à melodia, nunca ao controle
Usamos as redes como caixas de ressonância, mas a nossa vibração precisa de presença física. Deixem que os computadores calculem a matemática da música; nós entregamos a alma do canto.
A batucada pós-brejeira é decolonial e intergeracional
Honramos os mestres do axé, do samba e do tropicalismo que pavimentaram as avenidas de BH e estendemos o microfone para as novas vozes que redesenham a noite. Nossa tradição não é estática; ela é um refrão que se reconstrói no presente.
Não tentem nos equalizar. Não tentem reduzir a nossa orgia tropical a um loop de estúdio estéril ou a um padrão de comportamento previsível.
Eu mudei, a cidade mudou, o tempo correu. Mas quando a primeira batida de surdo ecoar nesta noite de 2026, vocês verão que a cadência permanece intacta. Eu estarei lá, não mais apenas como o subconsciente de uma noite passageira, mas como a memória ativa de que o balanço de Belo Horizonte não pode ser sintetizado.
Vistam suas flores. Sintam o groove da brisa. A Tropicanália está afinada, e o futuro é maximalista.

